Pesquisa do Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra ouviu mais de 800 organizações para analisar a distribuição de recursos e o acesso de grupos negros à filantropia
Por Sabrina Azevedo/Observatório do 3º setor
O Fundo Agbara, primeiro fundo de mulheres negras no Brasil, lançou o diagnóstico “Do centro das lutas às margens dos recursos”, estudo que analisa a relação entre filantropia, investimento social privado e raça no país. Realizada pelo Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra (Nupemn), a pesquisa mapeou mais de 2 mil organizações e ouviu 834 entidades negras em todas as regiões, traçando um retrato inédito sobre o acesso a recursos e a desigualdade racial na filantropia.

O levantamento mostra que o Brasil possui um conjunto robusto de organizações da sociedade civil negras, que atuam de forma comprometida para erradicar o racismo e reduzir desigualdades raciais. Essas organizações respondem diretamente às demandas de seus territórios e constroem, diariamente, possibilidades mais equitativas e socioambientalmente justas de bem-viver.
Segundo o Fundo Agbara, a filantropia, com seu poder financeiro e político, tem potencial para ser agente decisivo de transformação social e reparação histórica, desde que invista de forma estratégica no fortalecimento dessas lideranças. Apesar disso, persistem barreiras como a dificuldade de acesso a financiamentos e a falta de confiança de investidores, o que limita a atuação de organizações que já demonstram expertise em suas comunidades.
O documento ressalta que “não haverá justiça social sem equidade de raça e gênero, isto posto, sem a potencialização do trabalho comunitário e contínuo desenvolvido pelas organizações negras nos territórios tradicionais, de favelas e periferias. Qualquer iniciativa que proponha rompimento de mecanismos estruturais de produção e reprodução de desigualdades precisa ampliar a participação daqueles que historicamente estiveram à frente das lutas pela emancipação nesse país, ainda que suas condições de sobrevivência se colocassem como mais um obstáculo às suas atuações”.
A criação do Nupemn tem como objetivo sistematizar, produzir e difundir dados que contribuam para a equidade racial e de gênero, além de resgatar e preservar a memória da população negra. O núcleo busca transformar a memória, em ferramenta para reconstrução de narrativas, autoestima coletiva, emancipação psicossocial e promoção do bem-viver.
O estudo conclui que, para que a filantropia e o investimento social privado sejam verdadeiramente transformadores, é preciso priorizar o fortalecimento de grupos negros que já estão à frente das lutas sociais. Isso significa ampliar a participação dessas lideranças na formulação de políticas, destinar recursos de forma contínua e reconhecer seu papel histórico na construção de um país mais justo e igualitário.
Para consultar a pesquisa completa basta acessar o Diagnóstico acerca de filantropia e raça: Do centro das lutas às margens dos recursos.
Fonte: Observatório do 3º setor


