Publicação: 25 de junho de 2026Categorias: Notícias

Roberto Ravagnani *

Há algo de profundamente revelador no fato de que, em um país tão marcado pela desigualdade quanto o Brasil, o voluntariado ainda seja tratado como um gesto extraordinário — quase heroico — quando deveria ser parte natural da vida em comunidade. A verdade é que o voluntariado forma cidadãos mais atentos, mais empáticos e mais comprometidos com o bem comum. Ele é, por excelência, a prática que transforma espectadores em cuidadores da sociedade. E, no entanto, seguimos com um número de voluntários muito aquém do que poderíamos ter.

O problema não é falta de causas. Elas transbordam. Faltam, isso sim, estímulos, políticas públicas e uma cultura que valorize o engajamento cívico como algo tão essencial quanto estudar, trabalhar ou votar. O voluntariado ainda é visto como um “extra”, um luxo de quem tem tempo sobrando — quando, na verdade, deveria ser entendido como um investimento coletivo, capaz de fortalecer laços sociais e reduzir tensões que o Estado, sozinho, jamais dará conta de resolver.

É curioso observar como celebramos atletas que treinam horas por dia, músicos que se dedicam obsessivamente ao instrumento, empreendedores que viram noites construindo negócios. Mas quando o assunto é dedicar algumas horas por mês a uma creche, a um abrigo, a um projeto ambiental ou educacional, o entusiasmo evapora. Como se cuidar do outro fosse uma atividade menor, periférica, quase dispensável. Não é. É central. É estruturante. É o que sustenta sociedades maduras.

O voluntariado não apenas ajuda quem precisa — ele educa quem pratica. Ensina a conviver com diferenças, a reconhecer privilégios, a entender que cidadania não é um documento, mas um comportamento. Voluntários aprendem a ouvir, a cooperar, a resolver problemas reais, não teóricos. Tornam-se profissionais mais sensíveis, vizinhos mais atentos, eleitores mais críticos. Em suma: tornam-se melhores cidadãos.

E aqui está o ponto incômodo: se sabemos de tudo isso, por que ainda somos tão poucos? Por que o voluntariado não está nas escolas, nas empresas, nas campanhas públicas, nos currículos, nas conversas de família? Por que não tratamos o engajamento social como tratamos o esporte, a cultura ou a inovação — com incentivos, programas, metas e reconhecimento?

A resposta é simples e desconfortável: porque ainda não decidimos, como sociedade, que cuidar uns dos outros é uma prioridade. Preferimos terceirizar a responsabilidade ao Estado, às OSCs, a “alguém”. Mas esse “alguém” somos nós. Sempre fomos nós.

O Brasil tem potencial para ser uma potência do voluntariado. Temos criatividade, calor humano, senso de comunidade e uma infinidade de causas urgentes. Falta apenas transformar boa vontade em hábito, e hábito em cultura. Falta assumir que cidadania não se exerce apenas nas urnas, mas no cotidiano — e que voluntariado não é caridade, é compromisso.

Se quisermos um país mais justo, mais seguro, mais saudável e mais humano, precisamos de mais voluntários. Muitos mais. Não por altruísmo ingênuo, mas por inteligência coletiva. Porque sociedades que cuidam de si mesmas prosperam. As que esperam que alguém cuide, estagnam.

O voluntariado é o músculo cívico do Brasil. Está na hora de parar de deixá-lo atrofiar.

Palestrante, jornalista (MTB 0084753/SP), radialista (DRT 22.201),
consultor, fala de ESG, Voluntariado, Sustentabilidade.
Construtor de “pontes”
@roberto.ravagnani