Por Waneska Cipriano
Força, beleza e resistência do povo negro no Brasil
InclusaoSocial.com – Vamos começar por uma pergunta bem básica: Como e quando surgiu a ideia de escrever a obra “A África viva em nós”?
Gustavo Aragão – A ideia de compor esta obra surgiu há quase 10 anos, quando eu já escritor e tendo publicado algumas obras, exercia também a função de contador de histórias em bibliotecas e em colégios das redes públicas e privada, levando sempre as minhas obras, quando era convidado. Em encontros com o meu público-leitor, costumo contar histórias, respondo curiosidades que tenham sobre as obras, canto cantigas, interajo com todos. Em um dado encontro, contei uma lenda oriunda da África Ocidental, conhecida como “O pássaro Marabu”. Por vezes, uso nos momentos de contação de histórias recursos, adereços ou objetos de cena que me auxiliam na contação, mas nesta, em especial, costumo usar somente a voz e o corpo como instrumentos para alcançar o público; imito a voz de personagens, construo algumas onomatopeias e vou conduzindo os ouvintes ao mundo maravilhoso da história. A recepção dessa lenda sempre foi maravilhosa por crianças e adultos. Fala sobre a importância da tradição oral para o povo africano e desfia o surgimento das histórias escritas, ressaltando a importância do conhecimento. Certa feita, em minha casa, presenciei uma queixa de minha irmã do coração, Anne Beatriz, que ainda era uma garotinha linda. Ela nos confidenciou que os coleguinhas da escola dela ficavam zombando do cabelo dela por ser crespo e encaracolado, ficavam colocando apelidos nela de forma insistente e isso fê-la sofrer profundamente. Tempos depois, surgiu em mim o desejo de criar uma história para trabalhar essas questões e ressaltar a beleza e o poder dessas meninas negras, que também têm cabelo encaracolado e crespo e que sofrem com situações de discriminação e desrespeito por questões étnico-culturais, seja na escola onde estudam, na rua onde moram e, até mesmo, no âmbito familiar. Então, decidi fazer o reconto da lenda do pássaro Marabu e conectei este reconto à história de uma menina negra poderosa, linda e inteligente, trisneta de Ginga, que foi rainha de Angola, uma grande líder de seu povo. Conferi a essa personagem o nome Beatriz, primeiro em homenagem a minha irmã e em segundo lugar para homenagear uma das heroínas nacionais, a Maria Beatriz Nascimento, historiadora, professora, roteirista, poeta e ativista, natural de Aracaju, grande defensora dos direitos do povo negro e das mulheres; um grande orgulho para Sergipe. Desta forma, homenageio todas as meninas e mulheres negras do nosso país, que são exemplos de força, beleza, poder, inteligência e resiliência.
InclusaoSocial.com – Você recebeu os cumprimentos do público e autografou a obra, no foyer do Museu da Gente Sergipana, no dia 12 de setembro de 2023. Como avalia a repercussão deste trabalho até o momento, já que a obra visa ao trabalho não somente do elemento cultural afrobrasileiro em sala de aula?
Gustavo Aragão – A tarde-noite de lançamento da obra “A África viva em nós”, no Museu da Gente Sergipana, foi especialíssima! Sabe aqueles momentos que se cristalizam na memória e que ficam eternizados? Foi exatamente assim. O evento foi dinâmico, contou com o apoio e a presença magistral do Grupo “Um quê de Negritude”, que apresentou para os presentes um fragmento do espetáculo “Movimento da Resistência”. Não podíamos ter tido uma abertura mais simbólica e extraordinária! O evento contou ainda com a apresentação da professora e contadora de histórias Jolúzia Viana, que também contou histórias, houve uma exposição no foyer de peças africanas selecionadas do Ateliê Santa Rô, a presença de inúmeras personalidades negras do nosso estado, dos mais variados âmbitos de atuação profissional, que foram homenageadas na oportunidade, como Severo D’Acelino, Aglacy Mary, Sônia Carvalho, Alexsandra Carvalho, Taylane Cruz, Laura Cecília Braz, Antônio da Cruz, dentre outras. Foi uma noite, de fato, inesquecível! E a repercussão da obra, até o momento, tem sido maravilhosa. A obra é, antes de tudo, literatura. O trabalho dela no âmbito escolar é uma das possibilidades de apresentar a obra ao público-leitor, mas não a única. É uma obra que pode ser lida por pessoas de quaisquer idades, a qualquer tempo. Destaco ainda que a obra conta com as ilustrações extraordinárias, feitas de modo engenhoso e sensível por Jeane Caldas, escritora, poetisa e também ilustradora sergipana, que constrói o universo imagético a partir da técnica de recorte e de dobraduras em tecido para materializar o cenário onde as ações que compõem essa narrativa se passam. Conta ainda com o projeto gráfico-artístico e editorial de Germana Araújo, que com pinceladas de sua genialidade e o pleno domínio de suas técnicas consegue erguer um universo maravilhoso associado às ilustrações compostas por Jeane Caldas e que se articula perfeitamente com o texto literário e o conceito criado para a composição da obra. Nós três – Germana, Jeane e eu –, portanto, trazemos à luz uma obra muito bem-pensada, em que os três elementos da criação literária (texto, ilustrações e designer) dialogam e se harmonizam entre si, compondo um tríptico artístico poderoso. Não podia dar errado, não é mesmo? O resultado ficou incrível, e a recepção tem sido maravilhosa!
InclusaoSocial.com – Ao ler “A África viva em nós” saltam aos olhos os elementos simbólicos da cultura afrobrasileira, sua força, beleza e resistência do povo negro em nosso país. Em sua pesquisa você teve a intenção de ressaltar somente aspectos positivos desta página de nossa história?
Gustavo Aragão – Sim. A África é um mundo cuja história é tão antiga quanto à da humanidade. É uma concha lançada à própria sorte em mar turbulento, mas que resguarda tesouros inimagináveis dentro de si. Escrever sobre aquilo que identifica o povo africano ou afrobrasileiro, de modo leve e envolvente, visando ao público infantojuvenil, foi mesmo um desafio dos mais gigantes que já enfrentei como escritor até aqui, posto que não é fácil sintetizar, de modo particular, em 32 páginas, a riqueza, a beleza, o poder, a sabedoria, a história, a nobreza, o aspecto linguístico, a música, os instrumentos, dentre outros elementos da vasta cultura do povo africano. Foi preciso, é fato, construir por meio de recortes a ambientação que acolheu as narrativas que compõem essa obra, intitulada “A África viva em nós” e que nos permite embarcar no maravilhoso universo da literatura. Dei preferência aos aspectos positivos para a criação da obra. Precisamos ressaltar a beleza, o poder, a inteligência, a nobreza, as riquezas do povo negro, africano, pois foram exatamente esses elementos que foram silenciados por séculos. É preciso que percebamos todos eles e que reconheçamos as profundas contribuições desses povos para a construção da nossa cultura brasileira. Como reconhecer algo que não conhecemos. É preciso dar voz e vez aos grupos majoritários e que foram minorizados em nosso país por longos anos e que até hoje insistem em calar, em invisibilizar.
InclusaoSocial.com – A obra “A África viva em nós” faz parte de um projeto literário seu?
Gustavo Aragão – De certo modo sim. Com a publicação dessa obra, dou continuidade ao projeto literário, iniciado em 2013, que busca compor narrativas que destacam as contribuições das etnias fundantes da cultura brasileira. Dei o pontapé inicial com a publicação de A Lenda do Girassol – Coaraci e o Girassol encantados, que resgatava elementos da cultura indígena. Já em “A África viva em nós” busco resgatar não somente o elemento cultural afrobrasileiro, dentro de uma proposta antirracista, mas também trazer à tona aspectos relativos às contribuições dos povos negros à cultura brasileira, no tocante às dimensões linguísticas, artísticas, comportamentais, dentre outras. A obra também traz figuras históricas e míticas do imaginário negro, afrobrasileiro, numa tentativa de render homenagens, de reconhecer e tentar colaborar para encurtar os abismos que a ignorância e os preconceitos enraizados em nossa sociedade ainda cavam de modo assustador em pleno século XXI. Ela nasce de um desejo de render homenagens às Beatrizes, mas também aos amigos (in memoriam e àqueles que ainda estão entre nós), que tanto contribuíram para a minha formação como pessoa humana, e essa homenagem acaba por se estender à toda a comunidade negra por suas profundas contribuições.
InclusaoSocial.com – A Literatura é uma espécie de objeto mágico? Você acredita no poder transformador da Literatura?
Gustavo Aragão – Acredito que nela resida algo maravilhoso e que nos faz transcender e acessar aquilo que nos torna humanos. Penso a literatura, as artes e a Cultura como campos fecundos, capazes de provocar reflexões importantes, mas também transformações profundas, no tocante aos modos de pensar e ao comportamento humano. A Literatura é também um espaço propício para o sonho, para o exercício da imaginação, da empatia, para o exercício da reflexão, que visa ao rompimento de pensamentos e práticas opressoras, colonialistas e racistas, por que não? Por isso, eu, apesar de jamais sentir a mesma dor que um negro sente, ao se tornar alvo de olhares cruéis e atravessados, na minha condição de homem pardo, branco brasileiro como queira, de certo modo privilegiado, considero-me sensível e empático à condição do outro, sempre buscando respeitar a humanidade latente em cada um de nós. A literatura é esse entrelugar que nos permite um olhar transformador sobre nós mesmos, o outro e sobre o mundo com o qual interagimos.
InclusaoSocial.com – Onde é possível adquirir esta obra?
Gustavo Aragão – A obra está à venda nas melhores livrarias da cidade: Estudante Aju, Leitura, Escariz. Além desses pontos de venda é possível também através de um link gerado pela editora ( Link para aquisição da obra diretamente com a Editora: https://wa.me/5579999119631?text=Oi+gostaria+de+adquirir+o+livro+%22A+%C3%81frica+viva+em+n%C3%B3s%22do+escritor+Gustavo+Arag%C3%A3o+ ) por meio do qual o cliente faz o pedido, paga na modalidade pix e recebe a obra em domicílio. Inclusive, podendo recebê-la autografada, caso peça no ato da compra.
InclusaoSocial.com – Algo mais a acrescentar? Alguma mensagem?
Gustavo Aragão – Desejo a todos uma leitura transformadora e que as novas gerações possam ser mais igualitárias, mais tolerantes, respeitosas à diversidade e às diferenças que constituem nosso povo rico, forte e diverso.
O autor
Gustavo Aragão é um talento jovem de Sergipe que ingressou no mundo literário aos 16 anos com o livro “Os Encantos de uma Floresta” em 2000. Aos 19 anos, tomou posse da cadeira nº 4 do Movimento Cultural Antônio Garcia Filho da Academia Sergipana de Letras, tornando-se, na época, o mais jovem escritor e poeta a ingressar numa academia de Belas Letras no país. Graduado em Letras Português Licenciatura, pela Universidade Federal de Sergipe, Pós-graduado em Língua Portuguesa, pela Faculdade Pio Décimo, em 2007, buscou novos rumos e partiu para São Paulo, onde trabalhou como revisor e editor de livros didáticos e não didáticos (literários) em editoras nacionais, como CPB, IBEP, Editora do Brasil, Ática, Escala Educacional, DCL, dentre outras, além de desenvolver paralelamente sua atividade como ator, ingressando no Núcleo de Pesquisas Cênicas da Vila Mariana, no qual participou do espetáculo “Você nunca viu nada igual”, uma poética de cena que mesclava experimentalmente filosofia e teatro, aprofundando seus estudos, tomando contato com as dramaturgias de Samuel Beckett, Tadeusz Kantor, Friedrich Nietzsche, dentre outros, assim como participou das Oficinas Livres de Interpretação d’Os Satyros, ampliando seus conhecimentos na área da atuação teatral. Ao retornar para Sergipe em 2010, cursa Direito, idealiza e organiza a Feira da Leitura e do Livro de Sergipe (Flise) em 2015, assim como idealiza e funda a Academia de Letras de Aracaju (ALA) também em 2015, da qual foi eleito por aclamação como Presidente fundador no biênio 2015-2017. Aragão alcança o grau de Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Sergipe em 2023. Foi convidado a figurar como membro Honorário da Academia Sergipana de Contadores de Histórias (ASCH), ao lado de nomes como Aglaé D’Ávila Fontes, Augusto Barreto, Manuel Cerqueira etc. É ainda professor de Língua Portuguesa da SEDUC-SE, exerce atualmente a função como Diretor do Colégio Estadual Professora Áurea Melo, de nível Fundamental 1 (do 1º ao 5º Ano), da Rede Estadual de Ensino. O poeta e escritor traz na bagagem 8 livros publicados voltados ao público infantojuvenil: Os Encantos de uma Floresta; O Mundo Mágico; A Aventura dos Sonhos (1º livro infantojuvenil do estado, lançado no Portal Infonet); Além do arco-íris; Minha amiga Lua; Cristalino; A Lenda do Girassol – Coaraci e o Girassol encantados; Pintando o Amor com tintas e palavras, assim como o espetáculo infantojuvenil Azul, doce Azul!, que ganhou os palcos de São Paulo, com montagem e produção da Companhia dos Satyros (2011) e que foi vendido em 18 apresentações para o SESC- SP e 99 apresentações para a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo no mesmo ano.



