Por Roseane Moura
Redação InclusaoSocial.com
InclusaoSocial.com – Quando e como surgiu a ideia do “Moda em Rodas”? Na prática, como funciona o projeto? A moda já pode ser considerada inclusiva ou estamos distantes dessa realidade?
Heloisa Rocha – O Moda Em Rodas surgiu no dia 14 de outubro de 2015 e, inicialmente, em um perfil no Instagram e, pouco tempo depois, em uma página no Facebook. Nos primeiros anos, o perfil trazia apenas imagens minhas com os meus “looks” com o objetivo de mostrar aos seguidores os locais em que adquiria as peças e os truques/ajustes que fazia para poder ter um bom caimento. Felizmente, o projeto deu certo e foi conquistando pessoas – com e sem deficiência – do Brasil e do mundo, surgindo, dessa forma, a necessidade de inserir uma legenda em inglês. Com o tempo, eu fui conhecendo e aprendendo o conceito de moda inclusiva e, consequentemente, percebi a ausência de conteúdos que falassem sobre o assunto. Assim, eu decidi aproveitar a minha formação (e experiência) em Jornalismo para discutir o tema em questão porque, de fato, me incomodava o fato de ser a protagonista do meu projeto, uma vez que meu corpo, estilo e realidade não podem ser referência a todas as pessoas com deficiência. Então, por um tempo, eu apresentei e produzi um podcast semanal que levava o nome do meu projeto e, depois, decidi migrar os conteúdos para o site modaemrodas.com. Hoje, o Moda Em Rodas trabalha com os três seguintes pilares: resgatar a autoestima feminina – especialmente da mulher com deficiência –, estimular o mercado de moda e beleza inclusiva e promover uma nova concepção do corpo com deficiência na mídia. Quanto a realidade da moda inclusiva no Brasil, eu percebo que se fala mais sobre o assunto na mídia e nas redes sociais e que, também, cresceu o número de iniciativas (leia-se: produtos e coleções) voltadas ao consumidor com deficiência, porém ainda são trazidas de forma pontual. Além disso, as marcas voltadas para esse público são de pequeno porte e estão presentes apenas no e-commerce, que dificulta tanto o alcance quanto a competividade, especialmente com as fast fashions. E, finalmente, é preciso deixar claro que o consumidor com deficiência ainda não compreendeu os benefícios de uma moda projetada para os seus corpos e, por esta razão, não existe um movimento que apoie as marcas nacionais inclusivas e que cobre mais espaço por parte das grandes marcas.
InclusaoSocial.com – O Jornalismo foi sempre um sonho ou apareceu por acaso em sua vida?
Heloisa Rocha – Desde muito nova, eu sabia que queria trabalhar com público pelo fato de ser muito comunicativa, porém tive dúvidas se cursaria jornalismo ou psicologia quando estava no ensino médio. A decisão em cursar Jornalismo veio pelo fato de que, na época, acreditava que a profissão me proporcionaria um leque de oportunidades, pois eu poderia seguir tanto a carreira acadêmica quanto trabalhar em grandes redações. Além disso, me vislumbrava o fato de a possibilidade de poder falar sobre diferentes assuntos, ou seja, um dia tratar sobre política e no outro sobre futebol. Entretanto, assumo que não foi uma jornada fácil e que me exigiu muita paciência e perseverança, pois, infelizmente, a presença de profissionais com deficiência na imprensa ainda é muito pequena.
InclusaoSocial.com – Além do “Moda em Rodas”, você atua em outras atividades profissionais? Como é sua rotina de trabalho?
Heloisa Rocha – Além de atuar como palestrante e criadora de conteúdo pelo Moda Em Rodas, eu sou redatora da Rádio Gazeta Online, emissora dirigida pela Faculdade Cásper Líbero, localizada em São Paulo (SP). Pela emissora, eu sou responsável pela atualização do site e das redes sociais e, também, pela revisão de todo conteúdo textual produzido pelos estudantes antes de ir para o ar. Na Cásper Líbero, eu também sou membro do Núcleo de Acessibilidade, Apoio Psicopedagógico e Inclusão – NAAPI.
InclusaoSocial.com – Qual foi o momento do projeto “Moda em Rodas” mais marcante para você até agora?
Heloisa Rocha – Com quase uma década de existência, o Moda Em Rodas me trouxe muitas alegrias e conhecimentos e, também, a oportunidade de conhecer pessoas incríveis. Entretanto, eu classificaria os dois seguintes momentos como sendo os mais marcantes: A participação, em 2020, de uma edição comemorativa da revista Cláudia em razão ao Dia da Mulher e o convite para ser uma das coautoras do livro “Revolução da Moda: Jornadas para a Sustentabilidade”, lançado pelo Fashion Revolution Brasil.
InclusaoSocial.com – Quais os principais desafios que você observa para uma jornalista cadeirante? Você acredita que as empresas brasileiras querem somente preencher cotas ou essa fase já foi superada?
Heloisa Rocha – Visualizo que, diferentemente de outros movimentos (ou grupos) sociais, a participação das pessoas com deficiência nos veículos de comunicação é muito pequena quando comparamos a sua população tanto no país quanto no mundo. É verdade que nos últimos anos, a gente tem visto mais pessoas com deficiência atuando na área, a exemplo de Jairo Marques (Folha de São Paulo) e Flávia Cintra (TV Globo). Mas são poucos profissionais com deficiência que se graduam em comunicação e conseguem atuar em suas áreas de formação porque a mentalidade da sociedade é que a pessoa não será capaz de desempenhar suas funções. Sobre as cotas, a pessoa com deficiência não estaria inserida no mercado de trabalho sem a Lei de Cotas. É um fato! Por isso, ela é tão importante para a promoção da inclusão e da diversidade nas empresas. Entretanto, boa parte dos empresários ainda contratam o profissional pela deficiência e não pela sua formação e capacidade, dificultando a abertura de vagas de alto nível para colaboradores com deficiência e, também, os excluindo de competir com quem não tem uma deficiência. Prova disso é que, segundo o IBGE, 28,3% das pessoas com deficiência em idade ativa estão empregadas e, de acordo com a pesquisa “Radar da Inclusão: mapeando a empregabilidade de Pessoas com Deficiência”, apenas 2% desses profissionais estão em um cargo de alta liderança e 67% nunca obteve uma promoção. O mercado precisa entender que não se trata de contratar apenas para não ter que pagar uma multa ao Ministério Público do Trabalho, mas sim de oferecer as ferramentas necessárias para que o colaborador com deficiência desempenhe suas atividades e incentivá-lo a tomadas de decisões e novos desafios.
InclusaoSocial.com – Como você avalia a cobertura da imprensa brasileira quando se trata de pessoas com deficiência? Você se sente representada pela indústria da beleza?
Heloisa Rocha – O capacitismo ainda é presente na imprensa nacional, especialmente em momentos em que se utiliza a palavra “superação” ao contar a história e/ou a trajetória de uma determinada pessoa com deficiência e, com isso, colocando sempre a deficiência em primeiro plano e não os feitos da pessoa. Por outro lado, eu percebo que as temáticas das pautas estão, aos poucos, sendo ampliadas, ou seja, indo para além das datas comemorativas, do assistencialismo e da instalação de rampas e elevadores em espaços públicos e privados. Além disso, eu vejo que os colegas de profissão estão incorporando em seus vocabulários os termos corretos. E, no final, tudo isso é muito positivo porque a sociedade passa a ter uma nova percepção da pessoa com deficiência e, também, a se reeducar quanto às formas de tratamento, uma vez que os veículos de comunicação são responsáveis por formar e informar a população. Sobre a representatividade da pessoa com deficiência na indústria da beleza, eu noto um aumento da diversidade de corpos em campanhas, mas o com deficiência ainda aparece de forma muito tímida quando comparado, por exemplo, aos corpos pretos e pardos. Entretanto, defendo que a representatividade da sociedade com deficiência tanto neste quanto em outros mercados deve ir além de estampar uma vitrine ou um comercial, pois, no final, será uma inclusão pontual deste corpo. A indústria precisa adaptar seus produtos para o consumidor com deficiência e, para isso, é preciso que contrate profissionais com deficiência em todas as áreas da indústria, pois só alguém com uma deficiência encontrará soluções reais e eficazes para atender este público consumidor. Do que adianta ter uma modelo com deficiência estampando uma marca se o produto que ela usa não foi projetado para atender as suas necessidades, se a loja não é adaptada, se os vendedores não foram capacitados para atender um cliente com deficiência e se o site e as redes sociais não contam com recursos de acessibilidade.
InclusaoSocial.com – A deficiência é um obstáculo para relacionamentos afetivos mais sérios? Como aprendeu a lidar com o preconceito nesse quesito?
Heloisa Rocha – Esse é um assunto que foge um pouco da minha área de estudo, pois a percepção que tenho é meramente pessoal e não poderia falar pelas demais mulheres com deficiência. O que posso apenas acrescentar é que sempre fui uma mulher confiante e segura da minha pessoa e do meu corpo e, por este motivo, nunca precisei aprender a lidar com este tipo de preconceito porque nunca sofri e nem me permiti sofrer.
InclusaoSocial.com – A infantilização da mulher com deficiência ainda é uma realidade?
Heloisa Rocha – Creio que a “infantilização” da mulher com deficiência é uma realidade para determinadas deficiências, como as que têm nanismo ou deficiência intelectual. Infelizmente, a sociedade julga (ou trata) a mulher com nanismo de acordo com a sua altura e não pela sua idade. Já para quem possui uma deficiência intelectual e/ou apresenta um grau severo de verbalização/comunicação – paralisia cerebral ou autismo severo –, a infantilização ocorre porque a sociedade crê que essas pessoas não são capazes de tomar suas próprias decisões, especialmente quando o indivíduo apresenta dificuldade de aprendizado na escola. Para as demais deficiências, eu percebo que a mulher é mais julgada por suas capacidades, ou seja, se será capaz de gerar e criar uma criança, de manter um lar, de trabalhar, etc. Felizmente, a internet permitiu que a mulher com deficiência tivesse voz e presença e, dessa forma, a afastou desse lugar que a infantilizava. Apesar desse avanço, a mulher com deficiência continua a ser julgada no Brasil e, em muitos casos, se encontra em um estado de vulnerabilidade pior do que a uma mulher sem deficiência, a exemplo do afetivo.
InclusaoSocial.com – Você se sente mais confortável no papel de “inspiração” ou de “representação” para as mulheres que acompanham o seu trabalho?
Heloisa Rocha – Na realidade, eu nunca gostei de me classificar como “inspiração” ou “representação”, pois, primeiro, como qualquer pessoa tenho qualidades e defeitos e cometo erros e acertos, ou seja, não seria correto afirmar que sou alguém que inspira o outro sendo que sigo um longo e eterno caminho de aprendizados e aperfeiçoamento da minha pessoa. Quanto ao fato de “representar”, eu também não me considero porque faço parte de um universo de mais de 18 milhões de brasileiros com alguma deficiência e a minha realidade difere a de boa parte dessa população, impossibilitando, dessa forma, ser um corpo representativo de uma sociedade tão diversa e repleta de camadas sociais, culturais e econômicas. Diante da explicação, eu diria que me considero como uma “entusiasta” ou “apoiadora” do movimento de moda e beleza inclusiva tanto no Brasil quanto no mundo.
InclusaoSocial.com – Que mensagem você deixa para outras pessoas com Osteogênese Imperfeita?
Heloisa Rocha – A mensagem que desejo passar a quem possui uma deficiência é que se lembre que a deficiência é apenas um detalhe da sua pessoa e, por este motivo, não faça dela a sua única realidade e/ou possibilidade. Além disso, se possível, quero convidar a todos(as) a acessarem a página modaemrodas.com para acompanhar entrevistas incríveis com profissionais que estão atuando para tornar mais diversa e inclusiva as indústrias da moda e da beleza.






