Publicação: 10 de março de 2014Categorias: Entrevistas
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Fotos: Arquivo pessoal de Bento Cruz

O Ecoturismo de Base Comunitária é tendência em todo o mundo, por trabalhar questões sociais importantes, especialmente no que diz respeito à preservação do Meio Ambiente e das tradições locais.

Um dos principais temas destacados dentro deste viés é a Economia Solidária que emerge como um movimento que propõe uma alternativa de desenvolvimento, baseado em valores de sustentabilidade econômica, de redistribuição e de fruição dos resultados do crescimento em favor dos grupos que, historicamente, são desfavorecidos.

Para falar sobre este assunto, a equipe InclusaoSocial.com conversa com Bento Cruz, Consultor e Pesquisador na área de Planejamento Regional e Local com ênfase em Desenvolvimento Comunitário. Coordenador Executivo do Projeto “Ilha dos Aratus”, financiado pelo Programa Integração Petrobras Comunidades, Bento detalha as ações deste projeto.

Por Waneska Cipriano

Aratus_1InclusaoSocial.com – Como surgiu a ideia do projeto Ilha dos Aratus? Ele foi desenvolvido pensando exclusivamente na Ilha Mem de Sá [Itaporanga D´Ajuda] ou poderá atuar em outras locais após 2015?

Bento Cruz – Nos últimos anos, o Instituto Federal de Sergipe promoveu diversos projetos de pesquisa e extensão na Ilha, ao longo do processo de interação entre comunitários, pesquisadores (IFS) e visitantes foi desenvolvido uma ideia real sobre o gerenciamento e operacionalização das atividades turísticas. Para expandir a experiência, foi elaborado de forma participativa o Projeto Ilha dos Aratus visando a implantação de uma cooperativa e infraestrutura básica turística. Este período coincidiu com o lançamento do edital Integração Petrobras Comunidades, felizmente o projeto foi contemplado. O projeto foi elaborado e será executado de acordo com as necessidades e características locais, mas, após a consolidação do modelo de negócio, pretende-se sistematizar as recomendações e lições aprendidas com as experiências para que possam servir como modelo e/ou ser reaplicadas em outras comunidades, contribuindo para a construção de uma rede solidária de Ecoturismo de Base Comunitária no Estado de Sergipe.

Aratus_5InclusaoSocial.com – Por que o nome ´Ilha dos Aratus´ e quais ações serão desenvolvidas pelo projeto na Ilha Mem de Sá?

Bento Cruz – O aratu é encontrado em abundância na Ilha, a forma como é tradicionalmente catado pelas marisqueiras, com seus cantos no manguezal, encanta quem vê. Além de representar importante fonte de renda e ser principal ingrediente de deliciosas receitas. O projeto visa a implantação de uma cooperativa de turismo e infraestrutura básica receptiva com o objetivo de fortalecer as atividades, produtos e serviços ecoturísticos. Serão desenvolvidas ações de mobilização e articulação dos elos da cadeia produtiva, qualificação técnica, apoio ao desenvolvimento do grupo e do modelo de negócio e desenvolvimento das estratégias de marketing e comercialização.

Aratus_3InclusaoSocial.com – Quando se fala em Ecoturismo pensa-se também nos tais “roteiros integrados”. O Projeto Ilha dos Aratus pensou nesta estratégia também? E como será tratado o aumento na frequência turística para que não aconteça uma exploração massiva do local?

Bento Cruz – A Ilha Mem de Sá possui privilegiada posição geográfica, próximo à capital Aracaju, importante polo emissor de turistas. Além disso, sua posição possibilita roteiros integrados com a Orla Pôr do Sol; Crôa do Goré e Reserva do Caju, campo experimental e de educação ambiental da Embrapa Tabuleiros Costeiros e as principais praias do litoral Sul do Estado. O conceito de circuito é construído a partir da necessidade de receber simultaneamente visitantes autônomos e pequenos grupos, realizando itinerários que ofereçam experiências, atividades, ecossistemas e paisagens variadas, sem excessivos tempos e custos de deslocamento, levando em conta a limitada capacidade de carga do ambiente e a necessidade de manter o ecoturismo como atividade complementar. Este fator é essencial para evitar a descaracterização do modo de vida da comunidade e uma excessiva dependência econômica de uma única atividade.

Aratus_2InclusaoSocial.com – Como funcionará a cooperativa de turismo e qual será o impacto naquela localidade? Os próprios integrantes da comunidade irão atuar ou haverá algum tipo de terceirização de serviço?

Bento Cruz – A cooperativa possibilita a atuação direta e profissional dos comunitários envolvidos com a atividade, cabendo aos cooperados planejar e operacionalizar os roteiros, funcionando como uma agência receptiva de base local. A cooperativa tem o importante papel de unir esforços, possibilitando a apropriação da cadeia produtiva, pois com o aumento dos visitantes percebe-se sinais de especulação imobiliária e investidores externos interessados em monopolizar os serviços. Com isso, surgem riscos como a expulsão da população local e promoção do turismo de segunda residência, esta situação gera a má distribuição de renda e agrava as tensões sociais.

Aratus_6InclusaoSocial.com – O modelo de negócio prevê quais áreas e produtos? Foi pensada alguma rede para troca de experiências e fortalecimento das ações?

Bento Cruz – Pretende-se estruturar os roteiros da Ilha com a implantação de estrutura receptiva e aquisição de equipamentos de lazer. Além de atuar na melhoria dos serviços existentes, pretende-se também incentivar a produção de artesanato e produtos da agricultura familiar. O intercâmbio entre comunidades que atuam com ecoturismo de base comunitária é essencial para a troca de experiência e fortalecimento de uma rede solidária de turismo comunitário.

Aratus_7InclusaoSocial.com – Você deseja destacar algo mais sobre o Projeto ´Ilha dos Aratus´?

Bento Cruz – No decorrer das ações do projeto serão aplicadas técnicas da Permacultura, trata-se de um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas de escala humana ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis. Sendo uma oportunidade de aprender a (con)viver numa perspectiva de vida saudável. Produzir o próprio alimento, reduzir e reciclar resíduos, tratar água e esgoto, são passos para uma vida mais simples e circular, alinhada harmonicamente com a natureza.