Publicação: 20 de abril de 2023Categorias: Entrevistas

Em tempos de Chat GPT, Agência Mangue Jornalismo chega mostrando a importância da apuração jornalística

InclusaoSocial.com: No Dia dos Povos Indígenas, 19 de abril, entrou no ar o site da Agência Mangue Jornalismo (manguejornalismo.org), bem como suas redes sociais. Qual o objetivo desta Agência de notícias?

Cristian Góes, coordenador da Agência Mangue Jornalismo: O nascimento da Agência Mangue de Jornalismo é parte do sonho coletivo de jornalistas em Sergipe. Muitos de nós sonhamos que é possível ter um veículo jornalístico, mas estruturado em outras bases, por exemplo, onde a independência seja central, onde tudo na organização possa ser transparente e público, e onde a sociedade participe de alguma forma através de mecanismos de controle social. É assim que nasce a Mangue Jornalismo, uma organização sem fins lucrativos, independente, que busca sua própria sustentabilidade e está focada em reportagem. Não temos fôlego para cobrir o cotidiano ainda, mas podemos fazer reportagens mais longa, mais bem apuradas, sem muita pressão de tempo. Movemo-nos por causas que se intercalam, como a dos direitos humanos, do meio ambiente, do direto à cidade, da liberdade de expressão, das questões de raça e gênero.

InclusaoSocial.com: Por que o grupo escolheu os povos indígenas como tema central para lançar o site?

Cristian Góes: Depois de século de assassinatos, massacres e genocídio, o Brasil passou a lembrar que os indígenas existiam no dia 19 de abril. Depois de longos anos, em 2023, a data passa a ter uma outra e correta abordagem, dia dos povos indígenas. Os nossos primeiros habitantes, nossos povos originários, nunca foram índios, são indígenas. Isso tem relação direta com nossa ancestralidade, não apenas do passado, mas do presente. Assim, lançar a Mangue Jornalismo é uma nítida expressão de nossa ancestralidade, memória e perspectiva de ser e estar no mundo. O jornalismo, para nós, é esse lugar de nos reconhecer, de nos revelar e revelar as tantas histórias não-ditas. No casos dos povos originários em Sergipe, muito ainda não foi dito e na primeira edição da Mangue temos uma longa reportagem sobre isso.

InclusaoSocial.com: Realizar um jornalismo independente, investigativo, de qualidade custa caro.” Quem faz a Agência e quem apoia?

Cristian Góes: Sim. Realizar um jornalismo independente, investigativo, de qualidade custa caro. E de onde vem nossa independência? Veja, por força de nosso estatuto, não recebemos verbas de publicidade de governos e nem de empresas privadas. Não recebemos verbas de políticos com mandato, nem de partidos políticos e nem de organizações religiosas. Nosso sustento vem do pagamento, do apoio direto de nossas leitores, de apoio de outras organizações como a nossa, de sindicatos, associações. Além disso, podemos participar de editais públicos nacionais e internacionais de fundações filantrópicas que apoiam o jornalismo independente. Claro, não recebemos quase nada ainda. Nos primeiros dois anos vai ser de bastante aperto para fechar as contas, mas vamos conseguir. No primeiro dia de funcionamento do nosso site de reportagens entraram na conta três pix.

InclusaoSocial.com: Percebe-se, pelas reportagens, que a Agência busca trazer também um estudo por assim dizer antropológico de fatos. É falsa impressão ou foi essa a proposta?

Cristian Góes: É isso, mas não chega a ser um estudo. A Mangue Jornalismo está focada em reportagem, textos mais longos, matérias de causas, com mais apuração, busca de dados e documentos, longa entrevistas. Para isso, não temos tanta pressão do tempo do acontecimento. Não. Podemos fazer o material mais devagar, mais bem apurado, checar bastante e só assim, publicar. Como disse, não temos ainda fôlego para coberturas de fatos, eventos, acontecimentos do cotidiano. A proposta é focar na reportagem.

InclusaoSocial.com: A multimidialidade presente no site convida a uma experiência mais imersiva. Esta forma de interagir com o leitor busca criar uma empatia com as vivências indígenas?

Cristian Góes: Isso. E ainda não está como gostaríamos. A Mangue entende jornalismo em todas as suas dimensões e aparatos. Vai ter reportagem só de áudio. Outras somente de vídeo. Outra de texto e foto. Outras de gráfico. Terá reportagem só para o site, só para as rede, só para a newsletter, que na Mangue chamamos de Catado da Mangue. O jornalismo passa por aí tudo. Podemos ter numa mesma reportagem o texto, o áudio, o vídeo, o gráfico, a charge, etc, etc. e isso independentemente da temática. Por exemplo, se a gente resolver fazer uma matéria sobre violência nas escolas, podemos colocar isso tudo.

InclusaoSocial.com: O combate à desinformação é trabalho árduo. Como a Agência trabalha para este embate?

Cristian Góes: Essa é também é uma das questões centrais para nós. Veja, em toda reunião de pauta nossa, vamos colher de todos nós o que andam falando por aí e que é comprovadamente mentira, porém não está devidamente esclarecido. Aí podemos entrar com força, fazer uma boa reportagem contribuindo com o esclarecimento, trazendo a ciência, os fatos como são, combatendo ponto a ponto à desinformação.

 

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Waneska Cipriano, jornalista
Coordenadora do InclusaoSocial.com